Financiamento responsável: tenha os seus créditos sob controlo

É cada vez mais preocupante a taxa de portugueses que recorre ao crédito, procurando neste uma ajuda financeira para ultrapassar as dificuldades, ou simplesmente para adquirir um determinado bem que não conseguirá possuir de outro modo. Esta decisão é muitas vezes precipitada, impulsiva e resultante em parte da aparente facilidade e da forma como se publicitam os créditos. Estes factores são responsáveis pelo aumento do endividamento das pessoas, que “caem” na ilusão dos créditos, que transparecem aquilo que na verdade não são. Os anúncios utilizam as mais ancestrais técnicas de marketing, destacando as infindáveis supostas vantagens de adquirir um crédito para qualquer finalidade, relegando para segundo plano os planos de pagamento, demasiadas vezes mal explicados e colocados propositadamente de forma encapsulada. No fundo, a informação importante passa para segundo plano e o acessório para primordial.

Como em todos os ramos de negócios, também no sector do crédito as empresas se debatem para alargar a sua carteira de clientes, aliciando-os com mais-valias que alegadamente adicionam a inúmeros produtos e serviços. Contudo, cabe a quem solicita um crédito, a função de separar o trigo do joio, utilizando estratégias que lhes permitam avaliar correctamente aquilo que é oferecido, optando somente pelo que necessitam, sem sobreendividamento desnecessário. Independentemente do quão extraordinário pareça o crédito, a decisão tem de ser tomada em consciência e com uma boa dose de calma, caso contrário, o que poderia ser uma boa solução, poderá acabar por arruinar as hipóteses de sobrevivência financeira.

Um dos melhores conselhos para a ponderação de um crédito passa primeiramente por decidir a necessidade de contrair este financiamento. Um crédito pode constituir-se como um bom meio de melhorar a sua tesouraria pessoal, mas isso só acontecerá se for realizado de forma responsável. Por isso, há que ter em conta que o pedido de crédito só deve avançar se ainda não tiver nenhum ou, se os possuirmos, que estes não ultrapassem, juntamente com o novo crédito, mais de 20 por cento do seu orçamento mensal. Claro que esta percentagem é variável, não devendo, no entanto, em situação alguma, ser superior a 30 por cento. Idealmente, deverá mesmo ser inferior a esse valor, prevenindo eventuais situações mais complicadas de resolver.

Apesar de a maioria das pessoas recorrer ao crédito para a compra de determinado bem ou serviço, este poderá também ser uma boa escolha na hora de reduzir aqueles créditos que já se possuem. Pode parecer estranho, mas é verdade. Quando já se têm a cargo diversos créditos, a melhor solução passa por um crédito consolidado na mesma entidade. Ao optar por esta alternativa, os clientes podem chegar a conseguir diminuições de 30 a 60 por cento no valor da prestação a liquidar mensalmente. Esta será, por isso, uma hipótese a não colocar de lado à partida.

Hoje em dia, o Banco de Portugal (BP) é uma entidade central na concessão de crédito. É por esta instituição que passam os pedidos de informação das empresas concessoras de crédito, que solicitam ao BP dados sobre os clientes de quem recebem pedidos de créditos. Todos os clientes têm um histórico naquela entidade bancária [fichas de detentores de crédito], que permite avaliar o estado de endividamento de cada cliente, advertindo se estes já têm ou não créditos, bem como se já houve algum contacto de uma empresa de concessão de crédito que tenha alertado que essa pessoa está atrasada no pagamento das prestações. Contudo, a política das empresas credoras é o derradeiro critério que definirá se o crédito será concedido. Ou seja, o BP informa se o indivíduo já tem créditos anteriores, mas cabe à entidade decidir se faculta mais um destes financiamentos a essa pessoa.

Com ou sem boa publicidade, com ou sem bons sistemas de “fichas de detentores de crédito”, a protecção das finanças privadas é da responsabilidade de cada um. Antes de avançar para qualquer pedido de crédito, há que avaliar bem a possibilidade de contrair um crédito, pesando o esforço que isso implicará no orçamento mensal, assim como as limitações que isso colocará à margem de manobra financeira. Tal como a utilização dos cartões de crédito, também o recurso ao crédito tem de ser seriamente ponderado. A pior decisão é avançar para uma destas situações sem considerar tudo aquilo que essa deliberação pode implicar no seu futuro. Porém, a salubridade das suas finanças depende, em última instância, somente de si.

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